As folhas de rúcula roxa que colhi de um vaso deixado no chão da varanda eram tão picantes que metade ficou no prato. Rúcula roxa é a rúcula de folhas com nervuras arroxeadas, e foi com ela que passei a desconfiar do lugar onde o vaso ficava.
Montei então um teste com três alturas: o chão, uma mesa de apoio e uma prateleira alta. Chamei de estrutura alta qualquer apoio que deixasse o vaso longe do chão, como essa mesa e essa prateleira, e de luz indireta a claridade do dia que chegava à planta sem o sol bater direto nas folhas, como a que passava pela cobertura translúcida da varanda.
A diferença que encontrei entre as alturas foi maior do que eu esperava.
Três vasos, três alturas, um só teste
Para a comparação valer, só a altura mudou: os três vasos eram iguais, ficaram na mesma varanda e foram semeados no mesmo dia.
Chão, mesa de apoio e prateleira presa na parede: os três lugares do teste
O primeiro vaso ficou no chão, encostado à parede da varanda. O segundo foi para uma mesa de apoio de madeira, a 90 centímetros do piso, e o terceiro para uma prateleira de madeira a 1 metro e 30 centímetros do piso, presa na parede com duas mãos-francesas, que são os suportes em forma de triângulo que seguram a prateleira por baixo. Assim, a prateleira aguentou o vaso cheio de terra molhada sem balançar.
Os vasos eram de plástico, com 20 centímetros de largura e 18 centímetros de profundidade, e todos receberam a mesma terra de horta, de um saco comprado pronto. Em cada um semeei 6 sementes de rúcula roxa.
A varanda tinha uma cobertura translúcida, de plástico leitoso, que deixava passar a claridade sem deixar o sol bater direto nas folhas. Por isso, a luz era indireta nos três pontos, e a única diferença entre eles era a altura.
Na altura do meio, as folhas saíram maiores e mais suaves
Colhi as primeiras folhas aos 28 dias da semeadura na mesa de apoio, aos 30 dias na prateleira e aos 33 no chão, provavelmente porque a claridade que chegava perto do piso era menor. Medi as folhas com uma régua, do cabo até a ponta. As da mesa tinham em média 10 centímetros de comprimento, as do chão 8 e as da prateleira 7. No sabor, as da mesa eram macias e levemente picantes, as do chão ficaram no meio-termo e as da prateleira eram mais rijas e deixavam um picante marcante no fim.
Para entender o motivo, deixei um termômetro digital de ambiente ao lado de cada vaso e anotei a temperatura no fim da tarde durante uma semana. A mesa marcou em média 26 °C, o chão 27 °C e a prateleira 29 °C, a mais quente, provavelmente porque o ar quente sobe e ela ficava perto da cobertura.
Segundo um estudo publicado na revista Semina: Ciências Agrárias em 2011, sobre cultivares de rúcula, a planta precisa de temperaturas entre 15 e 18 °C para dar folhas grandes e tenras, e no calor as folhas ficam menores e mais rijas, com sabor mais acentuado. Nenhum dos meus pontos chegou a essa faixa, mas o mais fresco foi o que deu as melhores folhas.
Da prateleira para o prato
O teste também mostrou até quando valia esperar para colher e o que fazer com as folhas depois.
A rúcula da prateleira começou a florescer primeiro
No trigésimo oitavo dia, vi uma haste fina subir do centro da rúcula da prateleira, com botões de flores pequenas. É o sinal de que a planta passou a florescer, e a partir daí as folhas ficaram ainda mais rijas e picantes. Nos outros dois vasos, nenhuma planta tinha florescido até o fim das seis semanas.
Colhi então todas as folhas daquele vaso no mesmo dia, antes que o sabor ficasse ainda mais acentuado, e passei a olhar o centro das plantas dos outros vasos a cada dois dias.
Folhas macias na salada e folhas rijas no azeite
As folhas macias da mesa de apoio foram para a salada, com fatias de pera e queijo fresco, e o picante leve combinou com a doçura da pera. Foi o prato que mais repeti durante o teste.
As folhas mais rijas da prateleira, as das plantas que tinham florescido, não iam bem cruas. Passei então a refogá-las. Coloquei uma colher de azeite em uma frigideira, juntei um dente de alho amassado e as folhas, e mexi por cerca de um minuto, até ficarem macias. O picante diminuiu bastante, e elas serviram de acompanhamento para ovos e arroz.
Um vaso na altura certa e o picante que deixou de sobrar no prato
A rúcula roxa passou a ficar sempre na mesa de apoio, nem tão perto do chão nem tão perto da cobertura, e o picante que antes sobrava no prato virou um tempero que eu gostava de usar. A altura maior, que eu esperava que fosse a melhor, foi a que mais pediu atenção, e aprendi a olhar o centro das plantas antes de elas começarem a florescer. Para um cultivo tão rápido, a escolha do lugar do vaso pesou mais do que eu imaginava.
Outras folhas para o prato estão em Cultivo de Alface em Vasos Pequenos Dentro de Apartamentos, que conta como escolhi o tamanho do vaso e como corrigi o caule esticado por falta de luz, e em Plantando Mostarda Japonesa em Suportes Verticais Compactos, que mostra como organizei as folhas em painéis de vários níveis numa varanda estreita e como colhi só as folhas de fora.
